Dia do Psicólogo: a história da psicologia e o olhar da Gestalt-terapia
Em 27 de agosto de 1962 a psicologia virou profissão no Brasil. Um passeio pela história da área e pelo modo como a Gestalt-terapia trabalha o aqui e agora, o contato e o dar-se conta.
Todo 27 de agosto o Brasil celebra o Dia do Psicólogo. A data não é simbólica por acaso: ela marca o dia em que a psicologia deixou de ser um saber emprestado de outras áreas e passou a existir como profissão, com formação própria, responsabilidade própria e código de ética próprio.
Mais do que uma efeméride, é uma boa oportunidade para responder a uma pergunta que muita gente faz antes da primeira sessão: afinal, o que um psicólogo faz — e por que existem tantas abordagens diferentes?
Por que 27 de agosto
Em 27 de agosto de 1962 foi sancionada a Lei nº 4.119, que dispôs sobre os cursos de formação em psicologia e regulamentou o exercício da profissão de psicólogo no Brasil. Antes disso, o conhecimento psicológico circulava dentro da medicina, da educação e do mundo do trabalho, mas sem uma identidade profissional definida.
Alguns anos depois, a Lei nº 5.766, de 1971, criou o Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais. São eles que registram, orientam e fiscalizam o exercício profissional e que mantêm o Código de Ética Profissional do Psicólogo — o mesmo que garante ao paciente sigilo, respeito e um atendimento sem promessa de milagre.
Quando você vê um número de CRP ao lado do nome de um profissional, é dessa construção que se trata: sessenta e poucos anos de regulamentação para transformar escuta em ofício.
Uma ciência jovem para uma pergunta antiga
A profissão é recente. A pergunta, não. Aristóteles já escrevia sobre a psyché séculos antes de Cristo, e por muito tempo pensar a mente foi assunto exclusivo da filosofia.
O ponto de virada costuma ser datado em 1879, quando Wilhelm Wundt abriu em Leipzig, na Alemanha, o primeiro laboratório dedicado à psicologia experimental. Ali a psicologia passa a medir, testar e produzir método próprio.
O que veio depois foi uma sucessão de modos diferentes de olhar para a mesma coisa:
- Funcionalismo. Nos Estados Unidos, William James perguntou menos do que a mente é feita e mais para que ela serve, olhando a consciência como fluxo e adaptação.
- Psicanálise. No fim do século XIX, Freud desloca o eixo para o inconsciente, para o conflito e para aquilo que escapa à vontade consciente.
- Behaviorismo. A partir de 1913, com Watson e depois Skinner, o foco vai para o comportamento observável e para a relação entre ambiente e resposta.
- Psicologia da Gestalt. Também no início do século XX, Wertheimer, Köhler e Koffka estudam percepção e mostram que o todo é diferente da soma das partes: a mente organiza a experiência em figura e fundo, não em pedaços soltos.
- Humanismo. Nos anos 1950 e 1960 surge o que se chamou de terceira força, com nomes como Carl Rogers e Abraham Maslow, recolocando no centro a pessoa, a experiência vivida e a capacidade de crescimento.
Nada disso é uma fila em que a última abordagem invalida as anteriores. São lentes distintas, cada uma com consistência teórica e prática clínica. Escolher uma abordagem é escolher um modo de olhar, não um selo de qualidade.
Onde nasce a Gestalt-terapia
A Gestalt-terapia se apresenta ao mundo em 1951, com a publicação do livro Gestalt Therapy, escrito por Frederick Perls, Laura Perls e Paul Goodman. Ela bebe em quatro fontes:
- A psicologia da Gestalt, de onde vem a ideia de figura e fundo — a cada momento algo se destaca da nossa experiência e o resto fica em segundo plano.
- A fenomenologia, que convida a voltar à experiência tal como ela aparece, suspendendo explicações prontas sobre o que ela deveria significar.
- O existencialismo, com sua insistência em liberdade, escolha e responsabilidade.
- A teoria de campo de Kurt Lewin, que entende a pessoa sempre em relação com o meio, nunca isolada dele.
Vale um esclarecimento comum: psicologia da Gestalt e Gestalt-terapia não são a mesma coisa. A primeira é uma escola de pesquisa sobre percepção; a segunda é uma abordagem clínica que herdou dela conceitos centrais.
O que a Gestalt-terapia olha
Alguns conceitos ajudam a entender o que muda na prática.
Awareness, ou o dar-se conta
É a percepção do que está acontecendo agora — no pensamento, no corpo, na emoção, na relação. Boa parte do trabalho terapêutico é ampliar esse campo de percepção, porque não se escolhe diferente aquilo que não se enxerga.
O aqui e agora
A Gestalt-terapia não ignora a história de vida. Ela observa como essa história continua acontecendo hoje: no jeito de responder a uma cobrança, de adiar um limite, de engolir um incômodo. O passado interessa pela forma como ele se repete no presente.
Contato e fronteira de contato
Somos organismos em relação constante com o ambiente e com outras pessoas. É na fronteira desse encontro que as coisas acontecem: aproximar, recusar, absorver sem mastigar, ceder cedo demais. Muitos sofrimentos aparecem ali, no modo como se faz contato.
O ciclo de contato
Uma necessidade emerge, mobiliza energia, encontra o ambiente, se satisfaz e se retira, abrindo espaço para a próxima. Quando esse ciclo se interrompe sempre no mesmo ponto, algo fica em aberto — e o que fica em aberto costuma pesar.
Visão de totalidade
Corpo, emoção, pensamento, história e contexto formam um campo único. O cansaço de uma mulher que sustenta trabalho, casa e cuidado de outros não é um problema apenas emocional, nem apenas de organização. É tudo isso ao mesmo tempo.
Responsabilidade
Não no sentido de culpa, mas de capacidade de resposta: reconhecer o que está sob a minha escolha e o que não está.
A teoria paradoxal da mudança
Em 1970, Arnold Beisser formulou uma das ideias mais características da abordagem: a mudança acontece quando a pessoa se torna o que ela é, e não quando tenta se tornar o que não é.
Parece contraintuitivo, e é justamente aí que está a força. Boa parte do esforço de mudar costuma ser gasto brigando com o que se sente — não deveria estar cansada, não deveria estar irritada, não deveria precisar de ajuda. Enquanto a energia está nessa briga, ela não está disponível para o que realmente muda algo. Reconhecer o ponto onde se está costuma ser o primeiro movimento possível.
Como isso aparece em uma sessão
Na prática, o trabalho tende a ser mais diálogo do que questionário. Em vez de apenas perguntar por que algo acontece, pergunta-se também como acontece: em que momento, com quem, o que o corpo faz, o que vem logo antes.
O terapeuta observa o que se repete, o que trava, o que é dito com facilidade e o que só aparece de lado. Propõe experimentos combinados, no ritmo de cada pessoa, para que aquilo que foi percebido possa ser testado — e, quando faz sentido, transformado em decisão prática na vida real.
Não há receita nem promessa de resultado. Há um processo, e ele acontece a dois.
O que a terapia não é
Terapia não é conselho, não é opinião sobre a sua vida e não substitui acompanhamento médico ou psiquiátrico quando ele é indicado. Também não é serviço de urgência.
Em situações de crise ou risco imediato, procure atendimento de emergência ou ligue para o CVV no número 188, que atende gratuitamente 24 horas por dia.
Um recado no Dia do Psicólogo
Se você chegou até aqui, provavelmente a pergunta não é mais o que é psicologia, e sim se isso serve para você.
Não existe pré-requisito de sofrimento para começar. Não é preciso estar no fundo do poço, nem ter um diagnóstico, nem saber explicar direito o que está acontecendo. Basta perceber que algo pede atenção — e decidir olhar para isso com companhia.
Feliz Dia do Psicólogo a quem escolheu essa profissão, e obrigada a cada pessoa que confia o seu processo a ela.
Vamos conversar
Se algo aqui fez sentido, o próximo passo pode ser simples
Conheça os formatos de atendimento e escolha o que cabe na sua rotina.
Compartilhar
Quer conversar sobre isso?
Se esse texto te tocou, talvez seja hora de olhar para isso com apoio.
Falar no WhatsApp